DO BARRACÃO PARA O MUNDO

Ética e inovação sustentam expansão de empresa que começou como oficina e tornou-se marca presente em cinco continentes

Fevereiro de 2019, Vanessa Doubrawa Bertani recebe a notícia de que a Docol venceu o iF, um dos mais prestigiosos prêmios do design mundial, organizado na Alemanha, por um de seus produtos. A indústria de metais sanitários já havia recebido a mesma honraria em 2018, além de outra premiação em Chicago, nos Estados Unidos. Na mesa de Vanessa, está uma foto dos primórdios da empresa catarinense, com os três fundadores em um modesto barracão de madeira. São os irmãos Egon e Edmundo Doubrawa, o avô de Vanessa, com o cunhado de ambos, Amandus Collin.


Transcorria o ano de 1956 quando o trio decidiu montar uma tornearia e oficina de consertos gerais na cidade de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina. O nome Docol resultou da junção das primeiras sílabas dos sobrenomes, Doubrawa e Colin. Dois anos depois, a empresa mudou-se para Joinville para dar os primeiros passos na fabricação de válvulas. De lá para cá, uma sucessão de saltos guindou a Docol à condição de empresa exportadora para mais de 40 países, em cinco continentes.


Egon cuidou da área comercial e Edmundo assumiu a presidência da organização. Amandus deixou a sociedade ainda na fase inicial do negócio.


Nos anos 1970, a Docol deu seu primeiro salto significativo indo em busca de parcerias com valor agregado. A primeira foi com a alemã Georg Rost & Sohne, uma das maiores produtoras de metais com tecnologia. A união permitiu, por exemplo, oferecer descargas com dez anos de garantia, algo inédito no mercado até então, além de ampliar o portfólio de produtos.


Em 1980, outra junção de forças importante. Dessa vez, com a indústria argentina FV, reconhecida pelos metais de louça. Ao longo da década, a Docol, referência em válvulas, descargas e registros, passou a se notabilizar também pelo design das peças. “A empresa dava ênfase à parte técnica e começou a se aprimorar mais na parte estética também”, conta Vanessa, da terceira geração. Ela trabalhou em vários cargos executivos na companhia e hoje integra o Comitê Estratégico.


O passo seguinte foi destinar esforços para aprimorar seus processos de qualidade. Em boa parte, pelas exportações para os Estados Unidos. “Foi um marco, em que fincamos o pé na questão de produtos de qualidade. Passamos a ter toda uma expertise em acabamentos”, recorda Vanessa, e ressalta que os mesmos produtos que eram destinados aos norte-americanos abasteciam o mercado interno. “Não havia um produto feito para lá e outro para cá. Até porque seriam necessárias duas fábricas para isso, o que não teria cabimento.” Ela acrescenta que a obsessão pela qualidade tornou-se um padrão da companhia. “Somos uma empresa com baixo número de reclamações e quando existem, somos resolutos na solução”, afirma.


Em 1988, a companhia fez a sua primeira transição. Edmundo passou a presidência para o filho Ingo, engenheiro químico, que voltava de um período trabalhando na Alemanha. O sócio Egon já mais afastado da gestão acabou vendendo sua participação para o núcleo do irmão, que permaneceu à frente dos negócios. Ingo reconcentrou a participação da família Doubrawa em seu núcleo, contando com o apoio de sua esposa, Claudete, e a filha única do casal, Vanessa.


Na década de 1990, outro valor passa a notabilizar a Docol: a preocupação com o meio ambiente. “Lançamos os produtos economizadores de água e, junto, veio toda uma filosofia de economia de água, que no Brasil ainda não era tão difundida”, explica Vanessa. “Já fizemos parcerias para produzir materiais sobre o tema para escolas. Ao longo dos anos, foram diversos projetos com ações educativas sobre o uso consciente dos recursos hídricos.”


Uma das marcas da gestão de Ingo à frente da companhia foi o gosto pela inovação. “Era uma questão muito forte no meu pai, que foi transmitida para a família. Então, nós não deixamos esse legado se perder. Estamos sempre buscando coisas novas”, conta Vanessa. Como exemplo, ela cita o prêmio que a Docol recebeu em Singapura pelo desenvolvimento da tecnologia Bacteria-free, voltada principalmente para o segmento de hospitais, por eliminar esses micro-organismos dos metais sanitários.


Ingo comandou a Docol até 2016, quando passou a presidência para Guilherme Bertani, marido de Vanessa, então diretor-superintendente, com quase 20 anos de casa. Durante um período de aproximadamente oito anos a família se reuniu e debateu o processo sucessório. Mesmo após deixar o comando, Ingo continuava a frequentar a empresa, numa transição que se deu de modo planejado e sem sobressaltos. O fato abrupto foi a morte de Ingo, causada por um infarto em 2017, enquanto aguardava a chegada de uma turma para um treinamento na empresa.


A perda, no entanto, não desviou a Docol de seu fluxo. Uma razão para isso, segundo Vanessa, se deve ao legado de duas gerações. “Nosso crescimento sempre foi baseado na ética. Somos uma empresa auditada desde os anos 1970. Sempre fomos pautados pelo que é correto. Essa é uma virtude que meu avô e meu pai tinham muito forte e que permeiam a empresa”, observa. Um critério que orienta também os planos de crescimento da companhia. “Sempre quisemos expandir, sim. Mas dentro do que é correto, dentro do que é ético.”


Em janeiro deste ano, a Docol deu mais um passo para expandir-se, ao adquirir a Mekal, empresa paulista que produz pias de cozinha de aço inox de alto padrão. É mais um segmento de mercado em que a companhia vai atuar. Vanessa vislumbra o futuro com perspectivas de crescimento, sobretudo pela confiança na recuperação do setor da construção civil. “É um mercado que tende a ser beneficiado, até por ser um setor para gerar empregos, tanto na infraestrutura quanto na habitação, há um déficit habitacional no país”, analisa.


Em relação à família, Vanessa, mãe de um casal de crianças com 10 e 8 anos de idade, considera que a aproximação com a empresa se estabelece fundamentalmente pelo exemplo – como aconteceu com ela. “Fui criada, vendo o meu pai trabalhar, indo para negociações na Alemanha, para as feiras, eu participei de muitas. Nós já levamos os nossos filhos para a Expo Revestir para eles verem como era. No dia a dia, eles vão nos vendo, ouvindo o que comentamos, criando um gosto pela inovação, por fazer as coisas corretamente. Essa é uma disciplina que se dá em casa”, afirma.




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