QUANTO VALE SUA EMPRESA?

Especialistas explicam a importância da realização periódica da avaliação da empresa e alertam: não existe gerenciamento sem mensuração

Quanto vale nossa empresa? Responder esta pergunta de forma objetiva vai depender de quantas vezes o empresário já realizou uma avaliação acurada não apenas do patrimônio, mas também do valor gerado pela companhia. A conta vai além de percentuais de crescimento e do lucro gerado.


E não se trata apenas de conhecer o valor da empresa e de seu patrimônio, mas de utilizar essa informação para garantir um gerenciamento mais preciso do negócio. O economista Peter Jancso lembra que, para que qualquer bem econômico seja gerenciado, é preciso saber o quanto ele vale. “Não existe gerenciamento sem mensuração. Sem ela, é impossível traçar metas e alinhar as pessoas em torno delas”, compara.


Wagner Teixeira, sócio da höft, vai mais longe e diz que, sem uma avaliação consistente, o empresário trabalha com fantasia. “Alguns membros da família podem achar que vale muito e outros podem achar que vale pouco. Este é o pior cenário para eventuais negociações, onde é preciso contar com o valor real”, diz.


Teixeira reconhece haver, por parte dos fundadores, uma resistência em fazer a avaliação, muitas vezes para que seus filhos não imaginem que estão ricos e comecem a gastar. “Aqui existe uma grande armadilha: o pai não pode esconder a riqueza da família. Quanto mais fizer isso, menos estará preparando seus filhos para lidar com ela”. Teixeira lembra que “com uma avaliação é possível ver onde estamos perdendo e onde estamos ganhando valor”.


A consultora Marisa Laham lembra que conhecer o real valor da empresa pode ajudar muito em questões que vão desde conversas estruturadas entre os sócios até o direcionamento da gestão. “A avaliação da empresa é uma ferramenta útil para direcionar o negócio, seja para fusões e aquisições, seja para perpetuar o negócio. Ela ajuda a fazer isso de forma sustentável”, diz.


Ela lembra que a prática não é recente e tem sido utilizada no mundo todo. O ponto é que ela não está inserida no cotidiano dos empresários, tampouco dos altos executivos das empresas. Há um mito de que avaliação é uma ferramenta a ser utilizada somente no momento da venda ou da compra de uma empresa, não no planejamento do próprio negócio.

como medir?


O valor de uma empresa está diretamente ligado a alguns elementos: taxa de crescimento, taxa de receita, margem de rentabilidade, taxa de reinvestimento e o risco do negócio. De acordo com Jancso, essas cinco métricas devem ser acompanhadas de maneira consistente, com processos e metodologias próprias. Ele lembra que os resultados tendem a ser mais precisos, quanto mais características comuns tiver o negócio.


Os instrumentos mais utilizados para a realização da avaliação da empresa são o fluxo de caixa descontado e a comparação de múltiplos. No primeiro caso, os avaliadores montam uma grande planilha, onde são projetadas as transações da empresa e qual o fluxo de caixa que ela deve gerar nos próximos cinco ou dez anos. “A partir daí você traz esses valores futuros para o valor presente e a soma será o valor econômico da empresa”, explica Jancso.


Na avaliação por múltiplos, empresas do mesmo segmento são utilizadas como parâmetro. É possível escolher como referência uma empresa que tenha ações no mercado, acompanhar sua avaliação e também o valor das ações e seu faturamento. Se a empresa a ser avaliada tem as mesmas características, é possível utilizar esta referência de valor. Aqui, é importante garantir que a comparação se dá entre empresas com as mesmas características e ter em mente que o resultado será, na verdade, uma estimativa de preço, não de valor.


Existem duas principais premissas em uma avaliação por múltiplos: os preços devem ser padronizados. Por exemplo, para se calcular o múltiplo Preço/Lucro, é preciso encontrar o preço por ação e o lucro por ação. A segunda premissa é que as empresas devem ser comparáveis. Este princípio pode ser difícil de atender, pois não existem empresas idênticas e empresas no mesmo mercado podem divergir com relação a perspectivas futuras.

famílias empresárias


No caso das famílias empresárias, há ainda uma questão adicional a ser levada em conta: ter avaliações realizadas com frequência ajuda a empresa a lidar mais facilmente com processos sucessórios. “Nestes processos, a família pode participar sentada no banco do piloto ou a reboque dos acontecimentos”, compara Jancso.

Mesmo nos casos em que a empresa cresce e dá lucro, indicadores que podem ser facilmente medidos, a avaliação permite que se saiba o quanto de valor a empresa está gerando.


“A grande questão nas famílias empresárias é separar o valor da empresa e o patrimônio da família e decidir se eles querem ter patrimônio ou uma empresa”, provoca, lembrando que fazer a gestão do patrimônio é muito mais simples e menos arriscado. Isso leva a outro ponto, que é decidir se a família quer a manutenção do patrimônio ou seu crescimento. Se a resposta é manutenção, ter todo o patrimônio depositado sob um único CNPJ traz um risco muito maior.


Jancso lembra que, por tudo isso, acompanhar o valor da empresa ajuda a entender em que momento é preciso transformar suas ações em patrimônio líquido. “Nos processos de sucessão, mais do que definir quem vai comandar o negócio, é definido se a família vai querer deixar todo o dinheiro apostado na empresa. Esse cálculo só é possível se você souber o valor da companhia”, defende.


Marisa Laham cita ainda o perfil dos fundadores como outro fator para a não realização das avaliações. “Os empreendedores geralmente não compartilham planejamento, eles fazem. Do mesmo modo não se preocupam com a avaliação do negócio, mas com sua realização”, diz. Para ela, a preocupação com a avaliação vai surgir no momento em que a empresa começar a implementar práticas de governança ou a se preparar para o processo de sucessão, geralmente no momento em que o negócio começa a ficar grande, exigindo um foco maior na estruturação.

resultados


Marisa afirma que, bem feita, a avaliação contribui muito para uma visão mais realista do negócio, reduzindo desconfortos e desvios. “Com ela, é possível corrigir e melhorar a sensibilidade da empresa para tendências futuras”, ressalta. Permite também questionar a estrutura operacional e organizacional da empresa, que com esses dados em mãos pode trabalhar melhor questões como capacitação, formação e sucessão de gestores, por exemplo.

Seus resultados também podem ser sentidos no relacionamento entre os sócios, permitindo eliminar ou minimizar conflitos. “Quando qualquer sócio quiser fazer qualquer movimento, essa pode ser uma ferramenta que ajuda muito. Normalmente, quem quer comprar e vender, quer fazer isso pelo melhor preço. Se há uma ferramenta de consenso, isso facilita muito a discussão entre sócios e, também, com investidores”.


Para Jancso, o processo de avaliação é, na verdade, parte do processo de planejamento da empresa. “O subproduto é o valor da empresa, mas o processo bem feito ajuda a organizar um plano de ação e responsabilizar as pessoas. Muitas vezes a avalição se confunde com o processo de planejamento”, afirma.


Voltando às famílias empresárias, ele ressalta que o processo se torna mais importante da segunda geração em diante, quando a empresa passa a contar com novos agentes e novas demandas de liquidez. “Imagine uma família na terceira geração. Alguém contrata um consultor e ele diz que a empresa vale 100 milhões. Alguns podem achar bom e outros podem achar pouco. A única maneira de eliminar essa visão é ter um processo bem conduzido de avaliação patrimonial”, compara.


De todo modo, ele alerta que a avaliação como parte do processo de planejamento da empresa é uma coisa, bem diferente de uma avaliação feita às pressas, porque há um comprador interessado na empresa. “Não há nada mais irresponsável com o patrimônio do que entrar em negociação sem ter a real noção do seu valor”. Por outro lado, quando a avaliação é colocada dentro do processo de governança familiar, é possível ter no horizonte não apenas o desempenho da empresa, mas também do patrimônio da família.

Os múltiplos mais comumente utilizados:


1. Múltiplos de lucro- Este provavelmente é o mais conhecido e popular dos múltiplos. É muito comum encontrar análises que apresentam múltiplos de Preço/Lucro (P/L ou P/E) de empresas. O mais comum é encontrar o Preço por ação (P) dividido pelo Lucro por ação (L). Porém, existem outros tipos que consideram o EBITDA, EBIT, etc.


2. Múltiplos de valor patrimonial- Este é um múltiplo que se baseia no valor mercado dividido pelo valor do patrimônio líquido da empresa.


3. Múltiplos de receita- Este múltiplo é interessante para comparar empresas que atuam em mercados diferentes onde existam regras contábeis diferentes. Como a receita é a primeira linha do resultado, ela é menos influenciada pelas regras contábeis. Enquanto que os múltiplos de lucro e valor patrimonial têm seus cálculos mais influenciados pelas regras contábeis.


4. Múltiplos setoriais- Enquanto múltiplos de lucro, valor patrimonial e receita podem ser calculados e comparados entre empresas de setores diferentes, os múltiplos setoriais restringem a comparação a empresas do mesmo setor. O exemplo clássico é o da bolha da internet na década de 90, na época, como as empresas possuíam lucros e receitas muito baixas, as avaliações eram baseadas no valor de mercado/cliques. É preciso muita atenção para utilizar este múltiplo, pois a falta de parâmetro com outras comparáveis pode gerar falsas impressões.


Marisa afirma que é ideal comparar os resultados obtidos pelos dois métodos. Ela afirma que a metodologia de fluxo de caixa descontado proporciona uma visão mais sofisticada e confiável da empresa, porque é baseada na continuidade do negócio. “Você projeta o negócio por no mínimo cinco anos e investiga todos os cenários possíveis. É uma análise mais profunda e dá mais recursos para fazer uma avaliação de melhor qualidade”, diz, lembrando que a comparação de múltiplos não é tão confiável, já que uma empresa nunca é igual a outra, mas é um método mais rápido.


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