Qual é o segredo das famílias empresárias centenárias?
- hoft45
- 1 de out.
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Um dos maiores especialistas mundiais em famílias empresárias, Toshio Goto, explica os fatores que levam à longevidade.
Toshio Goto, diretor e pesquisador do Instituto Empresas Centenárias (RICM-Japan) e professor da Universidade de Economia do Japão, dedicou mais de metade de sua vida ao estudo das empresas familiares, com foco especialmente nas razões que explicam sua longevidade. Observando essa realidade a partir do Japão, o país com o maior número de empresas centenárias do mundo, 25.321*, ele segue pesquisando, comparando e inspirando as empresas familiares de todo o mundo.
Goto iniciou sua carreira profissional na NEC, uma grande empresa japonesa, e trabalhou na companhia por 33 anos, sem qualquer contato com o universo das empresas familiares. Somente após ingressar na área de pesquisas acadêmicas, em 1999, descobriu a importância desse tipo de organização para a economia e a sociedade. Nas últimas décadas, seu entusiasmo o levou a se aprofundar em estudos sobre a longevidade, onde percebeu que a maioria das empresas que ultrapassam um século de existência são familiares.
“No Japão, cerca de 96,9% das empresas são de origem familiar, empregando aproximadamente 73,7% da força de trabalho. E quase metade das grandes companhias listadas na bolsa são controladas por famílias”, comenta Goto. Essas empresas tendem a apresentar melhor desempenho financeiro e mais estabilidade em comparação às não familiares, inclusive no mercado de ações. A longevidade e o sucesso financeiro das famílias empresárias japonesas estão fundamentados em dois fatores: o compromisso com a sucessão geracional e o reconhecimento social desse compromisso.
O compromisso com a sucessão geracional pode ser definido como uma determinação firme de transmitir a liderança para as futuras gerações, motivada por uma profunda compreensão do papel social da família empresária. “As famílias empresárias não existem apenas para beneficiar os sócios, mas têm uma função muito importante para a comunidade e para a sociedade em geral”, afirma Goto. Esse entendimento cria um senso de propósito que transcende interesses individuais e imediatos, garantindo a continuidade do negócio por muitas gerações.
No Japão, a sociedade valoriza e apoia as famílias empresárias, criando um ambiente cultural e social que reforça o compromisso com a sucessão. Essa cultura de respeito e suporte social é um dos motivos pelos quais mais de 90% das empresas centenárias no país são familiares. “A combinação de compromisso interno da família e reconhecimento externo da sociedade é essencial para a longevidade dessas empresas”, reforça o professor.
Muitas de suas descobertas são com provações dos diversos aprendizados partilhados pelas famílias empresárias que perduram, de geração para geração. Inclusive o modelo matricial desenvolvido pela hoft, que está fundamentado em diversos fatores apontados pela pesquisa sobre as empresas familiares centenárias. Ainda que em termos culturais o Brasil ainda não tenha como prática a valorização da longevidade das famílias empresárias, existem atitudes e compromissos que podem ser praticados por seus membros, para despertar essa mudança de mentalidade.
A LONGEVIDADE EM SEIS FATORES-CHAVE
Além do compromisso com a sucessão e o apoio social, o professor Toshio Goto identifica seis fatores-chave para a longevidade praticados pelas famílias empresárias japonesas. Ao ampliar seu universo de pesquisa, percebeu que são fatores válidos para todo o mundo, e que impactam tanto o desempenho financeiro, como a estabilidade societária e gerencial.
PREPARE E FORTALEÇA
Para o professor Goto, quanto mais longa e detalhada for a preparação para a sucessão na família empresária, melhor. “Quando os futuros líderes são imersos na filosofia da família e do negócio, participando de processos de orientação e planejamento de carreira desde muito jovens, aumenta a possibilidade de que a identidade e os valores sejam mantidos ao longo do tempo”, analisa.
Essa é uma abordagem que, necessariamente, leva décadas. Ele recomenda, por exemplo, que nos 10 anos antes da sucessão seja feito um acompanhamento intensivo para garantir que o sucessor esteja plenamente preparado para assumir a liderança. “Isso vale até mesmo quando a liderança passa para CEOs não-familiares. Compartilhar os valores e a cultura organizacional é um fator fundamental para que a família empresária seja longeva”, afirma.
Uma vez que esse movimento deve idealmente ser planejado com antecedência e ser iniciado em casa, as famílias empresárias mais longevas são aquelas com uma filosofia bem estabelecida. Uma filosofia ao mesmo tempo imutável, pois preserva os valores fundamentais da família e seus fundadores, e adaptável, pois responde às mudanças do ambiente de negócios. “Um bom exemplo é o da Toyota. A filosofia de seu fundador, Sakichi Toyota, foi transmitida e adaptada pelas gerações seguintes, o que permitiu que a empresa se mantivesse relevante diante das transformações do mercado, dos avanços tecnológicos e das mudanças do comportamento dos consumidores”, explica Goto.
Essa soma de fatores culturais, sociais e gerenciais da sociedade e do negócio geram resultados concretos ao longo do tempo. “As famílias empresárias japonesas tendem a ter mais estabilidade operacional e rentabilidade ao longo do tempo do que os negócios não-familiares, uma vez que a visão de longo prazo e a prudência da gestão evitam riscos excessivos”, analisa o especialista. Para ele, a confiança construída com clientes, fornecedores e colaboradores gera fidelidade e reduz custos, enquanto o reconhecimento social reforça a reputação da empresa. “Esse é um ativo crucial não apenas no mercado japonês, mas em qualquer lugar do mundo”, lembra.
Ao longo do tempo, esse ativo vai sendo cada vez mais valorizado, a partir do compromisso firme da família empresária com a sucessão. “Há uma determinação inabalável de transmitir a liderança para as gerações futuras, o que se baseia em uma compreensão profunda do papel social que a família empresária exerce. A longevidade não acontece apenas para benefício da família, mas para o bem da sociedade como um todo”, acredita Goto.
No Japão, esse compromisso é apoiado por uma cultura que reconhece a importância das famílias empresárias e ajuda a explicar por que mais de 90% das empresas centenárias naquele país são familiares. “Essa é uma experiência que pode ser compartilhada global-
mente, desde que três condições sejam atendidas: as famílias empresárias contribuam para o bem-estar social, exista uma cultura que respeite e apoie os negócios, e haja a promoção desses valores em toda a sociedade”, esclarece o especialista.
Isso mostra que a longevidade das famílias empresárias não é fruto do acaso, mas de um esforço consciente e consistente de todos os seus membros, baseado no vínculo entre a empresa e a sociedade. “No Japão, há um princípio importante: as pessoas vivem felizes ajudando e sendo ajudadas. Por isso, entende-se que as famílias empresárias prosperam quando fazem o mesmo com seus públicos interessados”, comenta Goto. Essa conjunção de cultura forte, compromisso com a sucessão e um ambiente de valorização do legado, e dos valores, permite que as famílias empresárias permaneçam ativas e relevantes por séculos, trazendo uma contribuição inestimável para o desenvolvimento econômico e social de seus países.
*RICM dado de 2019 publicado no estudo de 2024 – FBN Japan









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