UNIR PARA CONQUISTAR

Lotear ou fracionar a empresa pode ser uma solução à primeira vista. Mas em longo prazo o risco para o negócio é grande

Muitos herdeiros, uma só empresa. O que fazer? O senso comum diz que o ideal é dividi-la, dar a cada herdeiro seu pedaço e deixar que ele desenvolva ali sua área de influência e poder. É o melhor, certo? Errado, e poucas empresas familiares percebem isso, apostando que a divisão pode solucionar possíveis divergências e competições entre os herdeiros. Por conta disso, não é raro vermos empresas familiares cujas áreas funcionam como verdadeiros feudos. Aqui, o diretor comporta-se como um mini dono, com 100% de autonomia sobre o que acontece em seus domínios e sem qualquer integração com as demais áreas. A questão é que estes herdeiros foram criados como donos – o modelo de sucesso do fundador - quando o ideal é que fossem preparados para ser sócios. A base de uma família empresária se inicia com a transição de um modelo individual para um coletivo. De acordo com o sócio e diretor-geral da höft bernhoeft & teixeira – transição de gerações, Wagner Teixeira, a divisão pode ser percebida tanto em empresas unifamiliares – quando o fundador acomoda os filhos em diferentes áreas da companhia –, como nas empresas multifamiliares, com filhos que herdam os cargos dos pais. “Nos dois casos, a empresa perde sinergia e não há hierarquia”, diz. Mais que isso, com o tempo, os “mini donos” de determinadas áreas tendem a não se subordinar a ninguém, criando dificuldades para a administração do negócio. Teixeira alerta que as companhias, e as famílias que as controlam, devem evitar essa armadilha. “A empresa tem sócios e precisa de uma unidade de comando. São patamares diferentes: liderança na gestão é uma coisa, diálogo societário, outra”, afirma. Além disso, a divisão das áreas deve ser feita de acordo com as necessidades corporativas e de mercado, não por questões hereditárias. Consciência Para Teixeira, a correção dos problemas causados pela divisão da empresa começa com a consciência societária, o que significa dizer que, em algum momento, os “mini donos” de cada área devem tomar ciência de que estão prejudicando o patrimônio de todos, inclusive o dele, ao invés de gerar valor e de que agir como sócio é diferente de ser dono. Obviamente isso passa por um processo de reflexão e maturidade que vai resultar na criação de mecanismos de comunicação, prestação de contas e de realização pessoal. “Quando falamos em realização, estamos falando que os herdeiros podem encontrar outros papéis, nos quais poderão influenciar o negócio de outra forma, sem a necessidade de disputar poder”, explica. Ele lembra que, na construção do negócio, o fundador passou a vida dentro da empresa, mas que este não precisa ser necessariamente o modelo a ser seguido por seus herdeiros. É um desafio, porque normalmente a primeira geração não consegue enxergar uma sociedade com quem não trabalha na corporação, e esta visão tende a se perpetuar. Outro ponto está na compreensão de que qualquer executivo é também um subordinado. Seja ele diretor ou presidente, o perfil precisa incluir a disposição de prestar contas. Teixeira alerta que esse pode ser o primeiro passo para a divisão. “O mesmo vale para os que acreditam que todos devem trabalhar somente na empresa da família”, diz. Mais que isso, os problemas gerados pela divisão acabam por afetar também a família, que se vê envolvida em uma situação de competição entre os herdeiros. “E essa competição se inicia, muitas vezes, pela atenção do pai, não do presidente ou do empresário. Acaba refletindo uma questão emocional”, ressalta. O ponto é que, dependendo do estágio em que a divisão está instalada, ela pode ser insuperável. Em outros casos, com um trabalho de conscientização societária e abertura de canais apropriados de comunicação, é possível fazer com que os herdeiros compreendam a situação e comecem a colaborar entre si. Um caminho é observar os exemplos de outras famílias que resolveram a questão encontrando alternativas que deram muito certo. O melhor dos mundos é quando problemas como esse são superados sem grande resistência e desgaste entre os sócios e familiares. Quando é assim, as questões vão sendo respondidas aos poucos, de forma quase imperceptível. “É positivo que aconteça dessa forma, pois não ficam sequelas. A consciência societária é encontrada em favor da empresa, não dos executivos”. Às vezes dá certo para os negócios, já para a família... A rivalidade entre duas das marcas mais conhecidas do mundo – Puma e Adidas - foi além da competição empresarial. Foi uma briga de família que fez os irmãos Adolf e Rudolph Dassler se separarem e dividirem uma empresa, montando cada um sua própria fábrica. Na década de 1920, Adolf e Rudolph eram sócios da empresa Dassler Brothers Sports Shoe Company, que tinha sede na cidade de Herzogenaurach, na Alemanha. Adolf era quem pensava e desenvolvia os sapatos, enquanto Rudolph os vendia. Apesar do sucesso nos negócios, as esposas de ambos não se davam bem, o que ajudou a começar o conflito. A história que impulsionou a rivalidade entre os irmãos aconteceu na Segunda Guerra Mundial, quando as duas famílias se protegeram juntas de um bombardeio. A mulher de Adolf teria dito que "os bastardos estão de volta", se referindo às forças aliadas, mas a mulher de Rudolph convenceu o marido de que o comentário se dirigiu a ela e sua família. Além disso, quando Rudolph foi chamado para o serviço militar ele suspeitou que tudo havia sido tramado pelo irmão para que ele fosse afastado dos negócios da empresa. Em 1948 a separação foi inevitável e os irmãos criaram duas empresas, dividindo até os empregados. Adolf criou a Adidas, junção de seu apelido (Adi) com o sobrenome Dassler, enquanto Rudolph criou a Ruda - junção das inicias de seu nome e sobrenome -, mas posteriormente mudou para Puma, pois acreditava que esse nome soava mais atlético. Os dois construíram fábricas em lados opostos da cidade e criaram uma grande rivalidade entre os moradores, fazendo com que algumas empresas locais vendessem apenas tênis de uma marca ou outra. Herzogenaurach chegou a ficar conhecida na época como "a cidade dos pescoços tortos", já que os moradores olhavam primeiro para os sapatos da outra pessoa antes de iniciar uma conversa. Mesmo na morte a rivalidade ficou exposta entre os irmãos, já que ambos foram enterrados no mesmo cemitério, mas em extremidades opostas, ficando o mais longe possível um do outro.

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