Como está a cultura de doação no Brasil após a pandemia?

O colunista Renato Bernhoeft diz que o desafio atual é manter o engajamento e generosidade visto durante a situação emergencial da covid-19 por várias entidades, empresários e organizações


Uma notícia recente que merece destaque é a publicação do World Giving Index – WGI – sobre um reconhecido estudo, realizado globalmente, pela organização britânica Charities Aid Foundation – CAF – que mensura, anualmente, desde o ano de 2009, a generosidade praticada por indivíduos e famílias.


O ranking considera três variáveis – ajuda a um desconhecido; doação a ONGs e trabalho voluntário – e aborda as ações realizadas em 2021, ainda sob o forte impacto da pandemia. Entre as 119 nações, tidas como as mais generosas do mundo, o Brasil aparece na posição 18. Foi o recorde do país, já que no ano anterior ocupou a posição 54.


O resultado aponta para o fortalecimento da cultura de doação no Brasil. Comparativamente com países que tem, tradicionalmente, uma cultura forte de doação, sendo este um valor da sociedade em geral, já que o investimento social é feito por famílias e empresas como parte dos seus valores.


Considerando o cenário brasileiro sobressai a atuação do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento Social - , que representa a CAF no Brasil, cujo objetivo primordial promover a filantropia e a cultura de doação por meio da produção de conhecimento, desenvolvimento de projetos e consultoria.


Segundo Paula Fabiani, CEO do IDIS, 76% da população, ou seja, três em cada quatro brasileiros, ajudaram a um desconhecido no último ano.


Entretanto, o maior crescimento foi de doações feitas a organizações da sociedade civil – 15 pontos maior que o ano anterior, - alcançando o patamar de 41%.


Paula reconhece que o aumento da fome e de pessoas em situação de rua, são evidências das necessidades sociais crescentes. O que levou muito mais pessoas se tornarem solidárias. O desafio agora, passada a emergência, é manter esse patamar em alta.


Entre os movimentos que o IDIS vem promovendo, está a ampliação do engajamento de famílias empresárias nesse esforço. Essa prioridade faz muito sentido em nossa realidade porque, historicamente, grande parte das empresas familiares brasileiras foi fundada por imigrantes, ou empreendedores de origem bastante simples. Ou seja, é bastante comum encontrar condutas onde estes mesmos fundadores afirmam desejar estabelecer um compromisso de “retribuir” ao Brasil aquilo que receberam ao longo da sua história de conquistas.


Um caso recente, que atraiu o interesse da imprensa mundial foi a iniciativa do empresário americano Yvon Chouinard, fundador da empresa Patagônia, fundada em 1973 – fabricante de roupas para atividades ao ar livre – que valendo atualmente US$ 3 bilhões de dólares – foi inteiramente doada a uma ONG, com a total concordância da esposa e seus filhos herdeiros.


Interessante registrar que a doação foi feita em um momento de fiscalização recente de bilionários e corporações, cuja retórica a respeito de tornar o mundo um lugar melhor, muitas vezes é ofuscada por suas contribuições para os mesmos problemas que dizem querer solucionar.


Segundo ele afirma “considero que meu gesto influencie uma nova forma de capitalismo, que não têm como resultado algumas pessoas muito ricas e um grande número de pobres”.

Voltando ao WGI merece registro de que pelo quinto ano consecutivo, o país mais generoso no mundo é a Indonésia, seguido por Quênia, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Mianmar, Serra Leoa, Canadá, Zâmboia e Ucrânia.


É notável destacar que o nível de renda não é diretamente proporcional à generosidade, e que aspectos culturais tem um peso importante no comportamento das pessoas. Registre-se também que a Ucrânia foi a única nação europeia, entre os Top 10 que subiu do 20º. lugar para o10o., em um cenário ainda anterior à guerra. E apenas no próximo ano poderemos começar a compreender as consequências do evento para os cidadãos.


Segundo Neil Heslop, CEO da CAF “ a generosidade assume diferentes formas ao redor do mundo, e até mesmo suas definições diferem entre culturas. A Covid 19 afetou muito mais os mais pobres e vulneráveis do mundo, impactando seu desenvolvimento”.

Enfim, fica aqui um convite para que mais indivíduos pratiquem atos solidários, e que famílias e empresas formalizem e estruturem suas ações.


E que, na medida do possível, considerem os movimentos que existem no Brasil, como IDIS, Gerando Falcões, CUFA e tantos outros que minha memória não registra no momento.

A cidadania brasileira agradece.


fonte: https://valor.globo.com/opiniao/renato-bernhoeft/coluna/como-esta-a-cultura-de-doacao-no-brasil-apos-a-pandemia.ghtml

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