Por Renato Bernhoeft
- hoft45
- 10 de nov.
- 2 min de leitura
Colunista do jornal Valor Econômico, Renato Bernhoeft escreve sobre a importância de profissionais assumirem a responsabilidade de serem autores e protagonistas de suas próprias trajetórias
O aumento da longevidade tem gerado inúmeros debates, pesquisas, desafios, além de grande interesse. Um dos tópicos mais discutidos em relação a esse assunto são as poucas e raras oportunidades de trabalho para os 60+. Daí nasce o termo “etarismo”, que se refere à discriminação, em diferentes dimensões, contra as pessoas idosas.
Neste artigo, porém, proponho abordar o tema sob outra ótica: o despreparo de muitos profissionais para lidar com essa etapa da vida que, até pouco tempo atrás, era sinônimo de aposentadoria e hoje, cada vez mais, se apresenta como um convite a uma nova transição. Mas será que estamos prontos para viver esse momento de forma ativa e inserida na contemporaneidade?
Um dos pensadores que trouxe uma visão positiva sobre essa fase foi Domenico De Masi, no clássico Ócio Criativo (1999). Para ele, a aposentadoria deveria ser vista como uma nova etapa, especialmente porque já rompemos com o conceito da Revolução Industrial que separava a vida em dois blocos rígidos: obrigação e prazer. O trabalho, nesse modelo, contaminava todas as esferas – individual, profissional, familiar, espiritual e de lazer – e dificultava encarar o ócio como algo construtivo.
Essa reflexão me remete a um anúncio publicado décadas atrás no jornal Gazeta Mercantil. O texto dizia: “troco a tranquilidade do meu sítio pelos problemas da sua empresa.” No corpo do anúncio, um ex-executivo explicava: “Fui, por muitos anos, alto executivo de multinacional e me aposentei realizando o maior sonho da minha vida: viver no meu sítio. Mas não aguento mais. Estou louco para voltar para uma empresa cheia de problemas.” A criatividade desse personagem não apenas chamava a atenção, como também resultou em seu retorno ao mundo corporativo.
Ainda nos anos 1980, na höft, criamos o programa “Pós-Carreira”, que tinha como objetivo preparar executivos para essa etapa, estimulando-os a desenvolver projetos com base em seus interesses e capacidades. Em 2013, associei-me a Denise Mazzaferro, especialista em longevidade, pois já era claro que o aumento da expectativa de vida ampliaria as oportunidades. O que chamávamos de “pós-carreira” passou a ser compreendido como transição – um movimento que exige preparo, muitas vezes antes mesmo da meia-idade.
Hoje, aos 83 anos, acredito que a necessidade vai além de se preparar apenas para o “pós-carreira”. É fundamental nos prepararmos para a vida em todas as suas fases. Afinal, o futuro se constrói no presente. Empresas que compreendem isso reconhecem que colaboradores conscientes, inspirados e bem preparados são o maior ativo de uma organização voltada à sustentabilidade humana.
O propósito deste artigo é, portanto, convidar profissionais a assumirem a responsabilidade de serem autores e protagonistas de suas trajetórias. Essa etapa pode ser uma das mais ricas e motivadoras da vida. Como já dizia Domenico De Masi, o equilíbrio entre trabalho, estudo e lazer é essencial para alcançar resultados verdadeiramente positivos.
matéria publicada no jornal Valor Econômico: https://valor.globo.com/opiniao/renato-bernhoeft/coluna/a-transicao-entre-a-aposentadoria-e-a-longevidade-ativa.ghtml







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