DIAS DE TRABALHO

De ajudante no empório dos pais em Portugal a empresário no Brasil, Armindo Dias atribuía sua trajetória de sucesso à dedicação incansável ao negócio

Lagarteira não dá padre.” A frase pode soar enigmática, mas foi decisiva no destino de Armindo Dias, fundador do Grupo Arcel. Cabe contextualizá-la. A frase foi a resposta do pai de Armindo a um padre que foi sondá-lo sobre a possibilidade de o garoto, então com 12 anos de idade, ingressar na carreira religiosa. E Lagarteira, no caso, é a cidade em Portugal onde Armindo nasceu em 1932.

A ideia havia partido do próprio Armindo. Apesar de saber que não tinha vocação para a vida de batina, entrar para o seminário era a alternativa mais viável para continuar os estudos. Pediu ao padre que tentasse convencer o pai, mas o tom resoluto da frase encerrou o assunto.

Tão logo concluiu o curso primário, ele conta que o pai já o encaminhara para trabalhar no empório da família. Era um comércio de produtos a granel, que garantia o sustento dos seis filhos. A família também tinha uma pequena lavoura, na qual Armindo trabalhava contrariado, por julgar não ser essa a sua vocação. A permanência de Armindo no negócio se estendeu até os 20 anos, quando foi para Lisboa servir o exército.

Ao término do serviço militar, as perspectivas na Europa do pós-guerra não eram nada promissoras. A ideia de buscar novos horizontes foi se fortalecendo. Cogitou ir para o Canadá, mas a experiência no comércio não seria suficiente para sua inserção no mercado de trabalho daquele país. Dois irmãos já haviam imigrado, um para a Venezuela e outro para o Brasil. Decidiu cruzar o Atlântico também. Para viabilizar a viagem, após a recusa do pai, pediu um dinheiro emprestado a um conhecido com a promessa de restituir a quantia “nem que tivesse de comer capim por lá”.

Assim que chegou em São Paulo, o imigrante de 24 anos soube de uma oportunidade para ser distribuidor da fabricante de chocolates Lacta em Salvador. Transportada por navio, uma significativa parte da carga se perdia, os chocolates derretiam com o calor na viagem. Por ter vivido o pós-guerra na Europa, Armindo não se conformava com desperdícios. Foi a São Paulo propor a compra de um caminhão para levar a mercadoria para a Bahia. Ainda que o volume transportado fosse menor, a economia de tempo preservaria a qualidade do produto. A Lacta gostou da ideia, mas não tinha como ser fiadora da compra do veículo. Armindo decidiu procurar o responsável por uma concessionária da Scania, e o convenceu a vender o caminhão em prestações, mesmo sem fiador. Na Bahia, ele mesmo dirigia o veículo e por várias vezes dormia nele para economizar o dinheiro das estadias em hotéis. As vendas prosperaram e Armindo começou a amealhar algum capital. Ao fim de seis meses, pagou o empréstimo, que havia viabilizado sua vinda ao Brasil. Após cinco anos na Bahia, avaliou que era necessário dar um salto maior como empreendedor. Voltou a São Paulo e adquiriu um pequeno atacado.

Com a rede de relacionamentos ampliada, foi convidado a visitar a fábrica de doces Campineira, já com a dica de que seria um negócio interessante. Na ida a Campinas (SP), no final de 1963, adquiriu 25% do negócio. Preparou o sucessor no atacado e, em março de 1964, assumiu uma planta com 2 mil metros de área construída e 60 funcionários. Nesse período, fez uma viagem para rever a família. Durante a estada em Portugal, reviu Célia, uma jovem que manteve na memória de quando ainda morava em Lagarteira. Das conversas iniciais ao casamento foram cerca de 45 dias e Armindo retornou ao Brasil com um novo estado civil. Armindo e Célia tiveram quatro filhos, três mulheres e um homem.

A partir de 1965, começou a expansão da indústria, que alcançou os 8 mil metros de área, abrigando 700 empregados. Nesse processo, o número de sócios foi reduzido e Armindo ficou à frente dos negócios.

Um episódio marcante na Campineira foi a criação da marca de biscoitos Triunfo. A ideia do nome surgiu quando veio para uma reunião na capital paulista e viu um carro importado com o nome Triumph parado em um semáforo. Era a inspiração para batizar o produto que fez a empresa ser líder no segmento de biscoitos no começo da década de 1990. A produção diária da fábrica nessa época era de 300 toneladas diárias, 30 vezes mais que as 10 toneladas tiradas do forno quando Armindo começou na empreitada.


Em 1994, vislumbrando crescimento, decidiu se associar à Danone e vendeu 49% da empresa para a multinacional francesa. A sociedade trouxe desafios de convivência. Percebeu que sua visão de empreendedor e sua liberdade de ação ficavam limitadas na estrutura de uma multinacional. Em 1997, o empresário se desfez do restante que detinha. Ele contava que seu plano era se aposentar na Campineira, mas as circunstâncias fizeram com que vendesse a empresa, àquela altura com 2400 funcionários, e já com seus filhos, sendo gradualmente envolvidos. Mesmo não sendo mais dono, o vínculo emocional ainda lhe pregou algumas peças, como no dia em que pegou o carro e só no caminho para a fábrica se deu conta de que não trabalhava mais lá. Força de 33 anos de hábito...

Entre as pessoas mais próximas, havia a percepção de que ele poderia parar ou, ao menos, desacelerar o ritmo que levava tocando os negócios. Mas, aos 65 anos, demonstrou disposição para investir de novo. Comprou o Hotel Royal Palm e a concessionária Tempo. Começava aí o Grupo Arcel, junção de seu nome com o da esposa Célia.

Desde então, os negócios só expandiram, a ponto de o grupo tornar-se referência no setor hoteleiro. O The Palms, por exemplo, abrigou seus patrícios da seleção portuguesa durante a Copa do Mundo em 2014. O Royal Palm Plaza foi eleito o melhor hotel do Brasil pela revista Viagem&Turismo em 2015 e 2017.

Apesar de não ter seguido a carreira religiosa, vislumbrada na longínqua Lagarteira, Armindo jamais abandonou a religiosidade. Católico, foi conhecido também pelas ações sociais que realiza em Campinas e região.

Suas jornadas raramente eram inferiores a dez horas diárias. Em 2015, na entrevista coletiva do lançamento de sua biografia “Armindo Dias – Uma vida de dedicação a Deus, à família e ao trabalho” (Editora Novo Século), escrita por Elias Awad, o empresário foi perguntado sobre que conselhos daria aos novos empreendedores. Com o pragmatismo que lhe é peculiar, disparou: “Fala para eles acordarem mais cedo, foi o que sempre fiz”.

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