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Mulheres estão mais preparadas para a aposentadoria


O colunista Renato Bernhoeft diz que perda da identidade profissional afeta mais aqueles que não cuidaram de todos os papéis durante a carreira


As abordagens sobre o tema do envelhecimento têm ganhado a cada dia novas abordagens em diferentes áreas do conhecimento humano, principalmente entre profissionais da psicologia, medicina, saúde física e mental, mundo artístico e tantos outros segmentos. Recentemente, o teatro também abordou o tema na perspectiva de artistas com um histórico de muito sucesso e que, repentinamente, caem no ostracismo para o qual não estão preparados.


Refiro-me à peça “Gabinete de Curiosidades” da autoria de Gilberto Schwartsmann, em que em uma das cenas o ator principal fala para sua parceira de palco – ambos com mais de 60 anos –: “A gente quer continuar pensando, fazendo teatro, mas nem sabe mais que teatro se faz hoje”. O ator Zé Adão Barbosa, que contracena com Arlete Cunha, declara que “a finitude é muito triste para um artista porque o corpo não é o mesmo, a memória fica debilitada e se perde a capacidade de concentração”.


Tendo já ultrapassado a barreira dos 80 anos, e trabalhando com o tema do pós-carreira desde o início dos anos 1990, desejo nesse artigo alertar o mundo corporativo para que não descuide do tema pela sua importância e atualidade.


Desde essa época tenho como parceira no tema a especialista em envelhecimento Denise Mazzaferro, com quem publiquei o livro “Longevidade – Os desafios e oportunidades de se reinventar”.


Vale ressaltar que da mesma maneira que as empresas se preocupam em criar programas para integração, desenvolvimento e carreira de seus profissionais, é essencial também que preparem seus executivos para a etapa de vida que se inicia com a aposentadoria.


Entre os aspectos que vale destacar está que o maior despreparo vem ocorrendo com as figuras masculinas. Dedicados intensa e concentradamente na construção de uma carreira profissional, muito apoiada na identidade corporativa, eles descuidam dos seus demais papéis, como cônjuge, parceiro, pai de família, relacionamentos sociais... E quando se aposentam descobrem que carecem de uma identidade pessoal, além de tentarem recuperar o tempo perdido com companheira, filhos e família de uma forma geral.


Basta indicar o alto número de separações, depressão e até suicídios entre ex-executivos. Já as mulheres que estão vinculadas ao mundo corporativo não podem abrir mão, ou descuidar, das demandas como esposa, companheira, mãe etc. Ou seja, vivem vários papeis simultaneamente. O que facilita lidar com o vazio da identidade profissional.


Portanto, a proposta deve estar centrada na ideia de construir um projeto de vida para esta nova etapa. Mas, acima de tudo, é importante considerar os vários papéis que todos vivemos. Ou seja, profissional, conjugal, familiar, social, individual, de autodesenvolvimento, espiritual...


O alerta aqui é que as empresas devem olhar este assunto como prioridade nos dias atuais.


matéria publicada em 28/02/23 - jornal Valor Econômico


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