BUSCA DO SUCESSO NÃO PREPARA PARA O OSTRACISMO

“Seja educado com as pessoas quando subir, pois elas serão as mesmas quando você cair”

– Autor desconhecido


A cada dia tem se tornado mais intensa a busca por modelos e fórmulas de sucesso, felicidade e exposição no relacionamento de muitas pessoas com o mundo externo.


Quando observamos as várias mídias sociais – facebook, instagran, entre tantos outros – só encontramos pessoas, casais, profissionais e empresários felizes e bem sucedidos.


Raramente alguém compartilha experiências de dificuldades, fracassos ou aprendizados na sua exposição ao mundo virtual. Algo que seria muito útil para as pessoas que buscam algum tipo de orientação ou provocações para seu processo reflexivo ou maneiras de dar algum sentido para sua existência.


Até após a morte o assunto ainda repercute. Segundo a americana Elaine Kasket, especialista em espólio digital. “Quando uma pessoa morre, não há um processo automático que reúna todos os seus dados e contas, então eles ficam espalhados por toda a parte. Algumas pessoas chamam esses traços de ‘pegadas digitais’, mas as informações estão se tornando tão complexas, abrangentes e coincidentes com quem somos que prefiro chama-los da ‘identidade digital’. Eles seriam como um espólio digital” conclui ela.


Vale registrar que tanto o sucesso, como a felicidade, exigem um processo de reinvenção permanente. Não existe um modelo que dure para sempre.


Todo esse aprendizado vem se ampliando com o aumento dos índices de longevidade.


De maneira geral as pessoas não são preparadas – tanto nas estruturas familiares como no sistema da educação formal – para entenderem que a vida exige permanentes reinvenções.


Afinal, além de a mesma estar constituída por várias etapas, desde o nascimento até a morte, envolve ainda assumir distintos – e muitas vezes simultâneos – papéis que devem ser cumpridos na medida em que avançamos no tempo e naqueles compromissos que assumimos.


A mera divisão entre o universo pessoal e profissional já não é suficiente. Cada um destes tem interligações e até etapas distintas que necessitam ser analisadas com cuidado e de forma integrada.


Sucesso profissional nem sempre vem acompanhado por realização nos papéis pessoais, tais como conjugal, familiar, espiritual, social, educacional, etc.


Mas algo que tenho observado ao longo de muitos anos entre pessoas que, em alguma etapa da vida ganham destaque e reconhecimento público – seja nos universos da política, cultura, esportes, empreendedorismo, carreira profissional, ou tantos outros segmentos da sociedade -, é o despreparo para o ostracismo.


O risco é ainda maior daqueles que, em um dado momento do seu sucesso, julgam estar acima do bem e do mal. Ou seja, mesmo ao se tornarem uma referência, para o conjunto dos seus admiradores, se consideram impunes às críticas, e um eventual descaso por deslizes na coerência entre suas posturas íntimas e públicas.


De maneira geral o ostracismo para muitas destas figuras públicas gera depressão, conflitos relacionais ou até suicídio.


O encantamento com o sucesso esconde perigos severos, e o ostracismo, principalmente em uma sociedade de consumo que digere e descarta com muita rapidez as novidades que aparecem, merece atenção em todo o processo de preparo.


Este artigo tem como intenção realizar provocações para que cada um examine o assunto na sua perspectiva. Não existem soluções mágicas e muito menos receitas de terceiros que possam resolver algo que é de caráter muito individual.


Vale pensar.

Artigo publicado em:

https://valor.globo.com/opiniao/renato-bernhoeft/ .

07/04/2022

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