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Riqueza e propósito: o papel da filantropia nas famílias empresárias

  • hoft45
  • 18 de jul.
  • 3 min de leitura

Como a trajetória dos fundadores influencia a cultura de doação e os caminhos possíveis para um impacto social duradouro

Por Renato Bernhoeft


Há décadas me dedico a estudar a história e origem da empresa familiar no Brasil. Hoje trago uma reflexão sobre aspectos importantes e dignos de serem considerados na perspectiva do seu envolvimento com a ação filantrópica.


Um olhar para o século XX mostra que boa parte dos nossos empreendedores são imigrantes ou filhos de imigrantes, especialmente oriundos da Europa e alguns países asiáticos, como exemplo o Japão. Foram pessoas que tratavam de fugir de guerras e países com uma economia em profunda crise. Ou seja, enfrentando dificuldades e desafios marcantes em suas vidas.


Chegavam ao Brasil com poucos recursos financeiros, mas com alguma habilidade e forte disposição para empreender. Isso quando não eram usados para substituir a mão de obra escrava, – especialmente em áreas distantes dos grandes centros, – que havia conseguido sua liberdade.


Já no século XXI começaram a surgir empreendedores brasileiros, que tentavam fugir do interior do país, pela falta de oportunidades de trabalho. Boa parte se concentrou nos Estados de São Paulo, Rio, Minas Gerais e alguns Estados do sul do país. Um registro importante desta fase, incluindo a atual, é o crescimento de empreendedoras mulheres. Especialmente com as conquistas femininas na sua liberdade, tanto na família como no mercado de uma maneira geral. Uma parte destes empreendedores, imigrantes e migrantes, hoje constituem a elite econômica no Brasil.


Ao participar do projeto "Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar no Brasil", a convite do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, me dei conta de como esse histórico influencia na visão de mundo dessas famílias e está conectado a suas práticas de doação.


O levantamento que integra a publicação, realizado junto a filantropos atuantes e especialistas no tema, somado a minha experiência, me levou a identificar algumas diferenças na abordagem em relação à filantropia.


Há aqueles que declaram abertamente de que a riqueza construída se destina aos seus herdeiros, para que não passem pelas dificuldades que cada um enfrentou. Focam sua sucessão apenas no aspecto patrimonial, cuja tendência é de fortes disputas entre os membros da geração seguinte. Segundo minha experiência, estes processos podem resultar em forte competição entre as futuras gerações, a ponto de destruírem totalmente o patrimônio herdado.


Outros manifestam uma visão mais ampla e consideram que o importante – do que construiu – é seu legado. Para alguns, essa dimensão está restrita a oferecer uma educação de ponta a seus descendentes e à transmissão de valores. Mas há aqueles que entendem que devem distribuir os resultados de suas conquistas tanto com os seus herdeiros quanto com o país, a comunidade e aqueles que permanecem numa situação de inferioridade na economia do país.


Um dos desafios para que esta posição dos fundadores possa se prolongar às próximas gerações é de que o patrimônio sofre uma pulverização acionária, o que também tem sido acompanhado por conflitos entre os interesses dos herdeiros das gerações seguintes. Desta forma, é importante que os fundadores, e patriarcas (sejam do sexo feminino ou masculino) criem políticas e estruturas de governança onde os ganhos patrimoniais sejam também destinados a entidades filantrópicas e, paralelamente, aos seus descendentes.


Conforme revela o levantamento do IDIS, existem famílias que criaram fundações próprias de maneira que suas práticas filantrópicas sejam realizadas de forma perene e com governança bem definida. Há aquelas, inclusive, que optam pela criação de fundos patrimoniais, mecanismo que garante que o recurso destinado seguirá gerando benefícios socioambientais.


Considerando que no Brasil o estímulo oficial para apoio às entidades filantrópicas ainda é insuficiente, se torna importante também que alguns filantropos coloquem a serviço do setor seu poder de influência e redes de relacionamentos, contribuindo para um ambiente regulatório mais favorável.


Existe um amplo potencial não só para envol­ver novas famílias e indivíduos em atividades filantrópicas, mas também para ampliar o volume e o impacto de quem já doa. O trabalho inédito desenvolvido pelo IDIS, e do qual tive a oportunidade de participar, apresenta um diagnóstico de onde estamos e apresenta um mapa estratégico claro para mudarmos esse panorama.


Fica aqui o convite para que, a cada dia, novas famílias se disponham a ter uma participação ativa no universo da filantropia e para que todos que se envolvem na gestão de seus patrimônios as aconselhem nesta direção, especialmente se considerarmos que vivemos em um país extremamente injusto e socialmente desequilibrado.


matéria publicada no jornal Valor Econômico em 15/07/25

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