SEM FÓRMULAS PRONTAS

Em vez de uma educação tradicional, o psicólogo Luiz Hanns defende que os pais observem e entendam seus filhos; assim, conseguirão dar limites e prepará-los para a vida

Pais e mães, de todas as épocas e gerações, enfrentam um dilema com a definição dos limites para seus filhos. As crianças e adolescentes, por outro lado, também se deparam em algum momento com o outro lado da moeda: rebelar-se ou adequar-se? O desafio parece mais complexo a cada geração. Os pais da atualidade desejam ser mais populares com os filhos e, por vezes, caem na tentação de abrir mão dos limites. O tema é frequente em revistas, livros e palestras,nas conversas em salas de estar, consultórios e escolas. Entre as famílias empresárias, a situação não é diferente, afinal, esse é um contexto que envolve diferentes gerações, desejos e expectativas em relação aos filhos. Para o psicólogo Luiz Hanns, dar limites não é fácil, mas sim, uma arte. Hanns desenvolveu ao longo de sua trajetória uma abordagem de psicoterapia comparada que permitiu avaliar as diversas linhas de abordagem da psicologia e criar um trabalho autoral, com conceitos próprios. E o tema, tão atual, não por acaso se transformou em um livro, A arte de dar limites – como mudar atitudes de crianças e adolescentes (Ed. Paralela, 2015), citado na seção Para Inspirar, na página 8. Conversamos com Luiz Hanns e, aqui, confira alguns trechos do bate-papo.


educação pensada

A educação pensada é aquela feita com base em princípios, não fórmulas prontas. Seria o contrário da educação corretiva, pois envolve um trabalho contínuo, iniciado ainda na infância, respeitando as características de cada criança. Segundo Hanns a genética determina metade do perfil de uma criança, a outra metade é aquela que pode ser desenvolvida. “Algumas são mais esportivas e menos imaginativas, sem perfil para atuar no mundo corporativo; outras têm pendores intelectuais e filosóficos, mas falta a elas uma visão prática. Isso varia de acordo com o temperamento, a predisposição genética de cada pessoa, portanto, é preciso levar essas características em conta em vez de ir contra a natureza do filho”, explica Hanns. O caminho é ajudar os filhos a adaptarem ao mundo, estimular algumas características e conter outras – em uma comparação com o físico, é ajudar o halterofilista a correr, mas sem querer torná-lo um maratonista. “É uma atitude diferente de querer que os filhos sejam aquilo que não são”.

o tripé da educação pensada

Hanns explica que o pai educador é aquele que sabe levar em conta o tripé: genética, circunstâncias de vida e ensino ativo, em um trabalho que deve ir, idealmente, da infância à adolescência. Nesta perspectiva, os pais têm papel fundamental, precisam estar comprometidos e se dedicar ao processo de educação, evitando terceirizar diretrizes ou tarefas. Como ele explica, cada pessoa é o resultado de suas forças e habilidades, em complemento com suas aprendizagens e os ambientes em que vive: a família de origem, os grupos aos quais pertence, a escola eleita pela família, e por fim, a cidade, e até o país, em que a família se situa.

cultura da sociedade vs. Valores pessoais

A família pode até influenciar ou direcionar determinados ambientes, mas não é dona deles. Há uma porosidade natural entre o núcleo familiar, a família ampliada, a cidade, a escola – os ambientes se interpenetram e sofrem influência cruzada. Ser muito dissonante do ambiente externo pode criar uma dificuldade para o seu filho, assim como ser crítico demais ou de menos. É tentativa e erro, mas de forma alinhada a seus valores. “Você é contra seu filho ter um iPhone ainda tão criança, mas a maioria dos colegas da escola têm um. Com receio de ele sofrer bullying, o que você faz? É preciso fazer opções. Se continuar naquela escola, você precisa amortecer a mensagem ruim que o ambiente emite de maneira implícita. Pode até dar ao filho o celular, mas explique que é uma exceção, que não é assim a regra em muitos outros lugares” explica o psicólogo. Um elemento essencial deste processo é o diálogo.

impor limites ou dar castigo?

Não há uma única forma. Limites excessivos e castigos mal dosados, em momentos inadequados, podem não ser efetivos. “Um filho mais brioso pode precisar de mais rigor, ao contrário daquele filho mais ‘evitativo’, que está precisando florescer”, diz Hanns. O ideal é ter um repertório com diferentes maneiras de agir – há momentos em que cabe dar um castigo e outros em que a gestão de consequência é mais adequada. Hanns exemplifica: “O primeiro é quando você tira por dois dias a TV do seu filho pois, ao sair para uma festa, ele se recusou a obedecer e colocar o casaco num dia frio. Essa é uma punição que terá que ser cumprida, mas não há uma relação entre desobedecer e ficar sem TV. O segundo vincula o tema da ação à consequência: você diz ao seu filho que, se ele não colocar o casaco, poderá ficar gripado e que você não permitirá que ele vá à festa se desobedecer. Essa não é uma punição; é uma consequência. Se a criança mudar de postura, poderá ir à festa. “Em geral, prefira o segundo, mas há casos em que o primeiro é necessário”, diz Hanns. E há ainda mais uma ferramenta importante, quando nem a conversa nem o castigo funcionam: realizar pequenos projetos de mudança. “Lidar com hábitos arraigados, que precisam ser mudados, não é simples, mesmo entre adultos. Nesse caso, vale criar pequenos projetos que levam à mudança, como num processo de coaching”, diz. Você pode estimular seu filho pequeno a ler ao deixar livros disponíveis em casa, ler junto com ele e reduzir o uso de eletrônicos. “Sem grandes explicações, buscando gradualmente a conscientização, mas sem o aspecto explícito do treinamento” diz.

plano estratégico para os filhos

Hanns comenta que uma prática comum em seus workshops com os pais é pedir para que anotem o que consideram importante para o futuro dos filhos. “É raro passar de 15 ou 16 tópicos, e as listas costumam ser muito parecidas entre os casais”, diz. No final, esses pontos se resume em seis competências básicas: ter filhos curiosos e entusiasmados, que encarem a vida como um constante experimento; com autonomia, desejosos de aprender por conta própria; capazes de perceber seus sentimentos e os dos outros; de aprender com os erros; flexíveis diante de uma frustração; que saibam planejar a curto, médio e longo prazo. “Se os pais já sabem o que consideram importante para o filho na vida adulta, por que não trabalham isso desde cedo? O ideal é fazer como todo bom plano estratégico, de trás para frente”, comenta. No entanto, os pais se baseiam na educação corretiva, em que observam e corrigem se necessário. “O ideal é treinar os filhos desde a infância, considerando a sociedade em que vivem e as características de cada um. É preciso aprender a pulsar com a vida”, afirma.

o segredo está no coletivo

Pensar coletivamente, entender o papel de cada um e valorizar a educação para ser um bom sócio são as bases para um coletivo forte. “O filho tem que ter noção de negócio e do que é responsabilidade. Ensinar a história de onde veio o dinheiro, mostrar como a empresa familiar foi construída. Assim, ele vai entender que a trajetória é um misto de talento, esforço, sorte e ajuda de mentores, conselheiros e trabalhadores. Tem que evitar o culto ao gênio, mostrar que o avô fez coisas certas e erradas”, afirma. O que vale é a consciência de um coletivo forte.


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